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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A venda da falsa cura pela célula-tronco

Pesquisadores criam serviço que ajuda a identificar clínicas que vendem terapias sem a menor comprovação científica

Quanto custa a falsa esperança de cura para doenças para as quais ainda não há tratamento? Entre US$ 20mil e US$ 40 mil é o preço médio em clínicas espalhadas pelo mundo. Elas prometem, por meio de aplicações de células-tronco, reverter problemas diversos de saúde. Estima-se que existam cerca de 700 desses estabelecimentos em todo o planeta. Recentemente, a Universidade de Alberta, no Canadá, apontou os sites de 19 serviços que vendem o que, pela ciência, ainda não pode ser vendido.

Os sites oferecem terapias para doenças neurológicas, cardiopatias, lesões medulares, câncer e até Aids. Não há, porém, cura por células-tronco para nenhum desses males. “Os únicos tratamentos de eficácia comprovada até agora são os que usam células-tronco da medula óssea ou do cordão umbilical para tratar doenças do sangue”, esclarece Júlio Voltarelli, pesquisador da Universidade de São Paulo.
Além disso, os riscos envolvidos são altos. “As células-tronco são uma terapia de grande futuro, mas com um presente sombrio”, considera Ithamar Stocchero, presidente da Associação Brasileira de Engenharia de Tecidos e Estudos das Células Tronco. Um caso emblemático tem servido de alerta à comunidade internacional para a necessidade de se frear o uso indiscriminado dessas terapias. O registro, feito por cientistas da Universidade de Toronto, no Canadá, é de um menino russo que recebeu células-tronco para o tratamento de uma doença neurológica. “A criança não melhorou e desenvolveu tumores cerebrais derivados das células transplantadas”, disse à ISTOÉ o cientista argentino Fernando Pitossi, membro da Sociedade Internacional de Pesquisas em Células Tronco.

Pitossi faz parte de uma força-tarefa montada pela entidade para atuar na vigilância às clínicas. Um dos resultados do trabalho foi a criação do site www.closerlookatstemcells.org (Um olhar mais atento para as células-tronco”, em tradução livre). Ele oferece o serviço de avaliação das clínicas – basta, para isso, que o paciente forneça o site do centro médico. É um passo importante para ajudar os doentes a não cair em armadilhas. Mas o período para a conclusão da análise, todavia, é longo – entre quatro e cinco meses – e a atuação da sociedade internacional, limitada. “Os países são soberanos para determinar os cuidados com a saúde de seus habitantes”, explica Pitossi.
Na prática, isso significa dizer que os limites para a atuação dos cientistas são determinados pelo bom-senso dos governos. E nem toda nação tem leis para coibir abusos, como a venda de terapias desprovidas de comprovação. O caso mais grave é o da China. Lá está a maior parte das clínicas e é para onde já foram alguns brasileiros. “O que observamos nas pessoas que voltam da China é a ausência quase total de benefícios”, diz Ricardo dos Santos, de Salvador, coordenador de estudos com células-tronco. Foi o que aconteceu com Laerte Colling, do Rio Grande do Sul. Portador de esclerose lateral amiotrófica, doença sem cura, ele foi à China e recebeu três aplicações de células-tronco. Mais de dois anos depois lamenta que a tentativa, que à época lhe custou R$ 60 mil, foi em vão. “Não houve melhora.”



                                                                            Expectativa
                                                      Solanir fez aplicações para deter a perda da visão.
                                  ainda aguarda sinais de que isso vai correr após o tratamento que fez na China.

É difícil, porém, convencer os doentes da inexistência de comprovação científica dessas terapias. “São pessoas com doenças graves. Se alguém lhes der uma perspectiva de melhora, por menor que seja, elas vão querer tentar”, diz Stocchero. É o que fará, novamente, Yoko Sugimoto, de Pernambuco. Há seis anos tetraplégica por causa de um acidente, em junho ela passou por sete aplicações de células-tronco, também na China. Para obter os cerca de R$ 100 mil gastos com a viagem, contou com os amigos, que fizeram campanha para arrecadar o valor. Yoko diz sentir um leve aumento na sensibilidade do braço e já se prepara para uma nova viagem ao país, no próximo ano.


                                                                        Tentativa
                                               Yoko se prepara para novas aplicações, na China,
                                                   na esperança de recuperar movimentos

Em São Paulo, Solanir de Morais é outro que espera por algum sinal de recuperação. Ele tem uma doença que provoca a perda progressiva da visão e, no meio do ano, gastou R$ 85 mil em oito aplicações, na China. Mas tem poucos avanços a relatar. Acha que a visão do olho direito está um pouco melhor, mas nada comparável à cura prometida. “A esperança que eles dão é que melhore até oito meses depois da aplicação. Estou esperando.”

                                                                       Decepção
                                         Laerte não melhorou da esclerose lateral amiotrófica






sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Conselho de Direitos Humanos do ES diz que clínica onde criança foi agredida deve ser punida

A equipe de reportagem da TV Vitória mostrou ao presidente do Conselho de Direitos Humanos do Espírito Santo, Bruno Toledo, as imagens das agressões praticadas por uma funcionária contra um menino autista, de 9 anos. Desde julho do ano passado, ele é um dos pacientes atendidos na clínica especializada, que funciona em uma área nobre de Vitória. A criança, que tem pouca coordenação motora, estava presa à cadeira por uma contenção e foi agredida com tapas e puxões de orelha. Descontente com o comportamento do paciente, a profissional puxou a orelha da criança e empurrou a cabeça dela para trás. O menino chorou, mas isso não comoveu a mulher, que se sentou rindo.


Perplexo com as cenas, Bruno Toledo repudiou as atitudes da mulher e disse que o Conselho de Direitos Humanos vai acionar o Ministério Público do Espírito Santo. "Na condição de presidente do Conselho de Direitos Humanos do Estado não me cabe outra atitude a não ser repudiar uma cena tão abjeta como essa. Não nos cabe outra reação. Imediatamente nós temos que notificar ao Ministério Público Estadual para que de alguma forma investigue se essa clínica pode continuar funcionando".

O administrador da clínica onde ocorreu a agressão afirmou que o local funciona há 33 anos e que nunca houve registro de caso parecido. Depois da divulgação exclusiva do flagrante de agressão na TV Vitória no último dia 19, a funcionária foi demitida por justa causa. O Conselho de Direitos Humanos defende uma punição mais rigorosa, inclusive para a clínica. "Nós precisamos saber qual a responsabilidade da direção e até que ponto ela foi omissa. É preciso mais, não basta punir a profissional", assegura Toledo.

A direção da clínica informou que está à disposição para prestar esclarecimentos à Justiça sobre as agressões ocorridas no interior do estabelecimento. O proprietário acrescenta que trabalha no ramo há mais de 30 anos e que desconhecia o comportamento da funcionária, por isso, ao saber do fato, demitiu a profissional por justa causa.

O Desfecho dessa hístoria horrivel!!!!!!!!

Polícia Civil pede prisão de professora que agrediu menino autista em Vitória
Segundo delegado, existem indícios suficientes para concluir que a professora praticava as agressões de forma reiterada


A Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) encerrou e enviou à Justiça, nesta quinta-feira (25), o inquérito que investigou a agressão sofrida por um menino de nove anos em uma clínica de Vitória. O titular da unidade, delegado Marcelo Nolasco, pediu a prisão da professora suspeita de agredir a criança.

O delegado disse que após analisar as provas e os depoimentos colhidos até o momento, existem indícios suficientes para concluir que a professora praticava as agressões de forma reiterada. A criança é autista e estava aos cuidados da mulher e sem possibilidade de se defender dos maus tratos.
"Além de ser agredida fisicamente, a criança sofreu agressões psicológicas. A partir das provas, entendi que a professora estava praticando uma espécie de pedagogia do terror", ressaltou o delegado.
Com o encerramento do inquérito, o delegado Marcelo Nolasco pediu à Justiça que conceda a prisão temporária da professora.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Desespero pela Cura do Autismo

Os diagnósticos evoluíram, mas são poucos os tratamentos eficazes. Pais recorrem a terapias alternativas suspeitas e, com frequência, arriscadas

QUANDO SE DIAGNOSTICOU AUTISMO em Benjamin, seu primogênito, Jim Laidler e sua esposa começaram a buscar ajuda. “Os neurologistas diziam: ‘Não sabemos as razões para o autismo nem quais serão as consequências para seu filho’”, relata Laidler. “Ninguém dizia: ‘Essas são as causas; esses, os tratamentos’.”

Mas, ao pesquisarem na internet, os Laidlers, moradores de Portland, no estado americano de Oregon, encontraram dúzias de tratamentos “biomédicos” que prometiam amenizar ou mesmo curar a incapacidade de Benjamin de falar, interagir socialmente ou controlar seus movimentos. E, assim, os Laidlers testaram essas terapias em seus fi lhos; começaram com vitamina B6 e magnésio, dimetilglicina e trimetilglicina – suplementos nutricionais –, vitamina A, dietas livres de glúten e caseína, secretina – hormônio envolvido na digestão – e quelação, terapia medicamentosa destinada a eliminar chumbo e mercúrio presentes no organismo. Aplicaram esses supostos tratamentos a David, irmão caçula de Benjamim, também diagnosticado com autismo. A quelação não pareceu ser de muita ajuda. Foi difícil perceber qualquer efeito decorrente da secretina. As dietas trouxeram esperança; para onde fossem, os Laidlers carregavam a própria comida. E Papai e Mamãe continuaram a alimentar os garotos com inúmeros suplementos, modifi cando as doses de acordo com cada alteração comportamental.
O primeiro sinal de fracasso dessas experiências veio quando a mulher de Laidler, cada vez mais cética, interrompeu a administração dos suplementos a Benjamin. Ela esperou dois meses para revelar esse segredo ao marido. Seu silêncio chegou ao fi m quando Benjamin, em uma viagem da família à Disneylândia, pegou um waffl e de cima de um bufê e o devorou. Os pais observaram a cena horrorizados, convencidos de que o garoto teria uma regressão do quadro no mesmo instante em que sua dieta restrita fosse interrompida. Mas isso não aconteceu.
Jim Laidler tinha o dever de saber disso: é anestesista. Desde o começo, estava ciente de que os tratamentos usados em seus fi lhos não passaram por testes clínicos aleatórios,
o padrão-ouro para terapias médicas. “No princípio, tentei resistir”, justifi ca. Mas a esperança venceu o ceticismo.
Todos os anos, centenas de milhares de pais sucumbem à mesma tentação de encontrar algo capaz de aliviar os sintomas de seus sofridos fi lhos e fi lhas: ausência de fala ou comunicação, interações sociais ineptas, comportamentos repetitivos ou restritos, como bater palmas ou fi xar-se em um objeto. De acordo com alguns estudos, quase 75% das crianças autistas recebem tratamentos “alternativos” não desenvolvidos pela medicina convencional. Além disso, essas terapias frequentemente são enganosas; não passam por testes de segurança ou efi cácia, podem ser caras e, em alguns casos, produzir danos.

SEM CAUSA, SEM CURA

AUMENTA MUITO A DEMANDA PARA O TRATAMENTO DE AUTISMO, pois mais crianças estão sendo diagnosticadas sob critérios cada vez mais amplos. No início dos anos 1970, quando o autismo era conhecido como “psicose infantil” – mistura de défi cits sociais e defi ciência mental –, considerava-se essa condição rara. Os pediatras recomendavam aos pais já afl itos de uma criança de 8 meses que, por exemplo, não fazia contato ocular que “dessem tempo ao tempo”.
Estudos indicavam, nos Estados Unidos, que cerca de 5 crianças em 10 mil apresentavam autismo, mas essa proporção aumentou quando os médicos redefi niram a condição como transtorno do espectro autista, que inclui sintomas mais leves. Com a publicação, em 1994, da versão atualizada da bíblia da psiquiatria, o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, conhecido como DSM, incluíram-se a síndrome de Asperger – condição altamente incapacitante, popularizada pelo fi lme Rain Man – e um grupo abrangente, denominado “transtornos invasivos do desenvolvimento, sem outra especifi cação”. Os médicos também começaram a perceber os benefícios do diagnóstico e tratamento precoces. Em 2007, a Academia Americana de Pediatras recomendava a avaliação universal para autismo de todas as crianças entre 18 e 24 meses. Nessa época, a taxa de incidência de autismo disparou para 1 em 110 crianças.
É controverso dizer que diagnósticos mais sofi sticados refl etem um aumento real dos casos, pois pouco se sabe sobre as causas desse problema. “Na grande maioria dos portadores de autismo, não conseguimos identifi car nenhum fator genético claro”, indigna-se David Amaral, diretor de pesquisa do Instituto Mind, ligado à University of California em Davis, e presidente da Sociedade Internacional de Pesquisa do Autismo. Não há biomarcadores disponíveis para indicar as crianças sob risco nem para aferir a efi cácia dos tratamentos. O conjunto mais substancial de pesquisa está relacionado às intervenções comportamentais destinadas a ensinar interação social e comunicação, que parecem ajudar de várias formas algumas crianças.
A falta de terapias empiricamente comprovadas torna mais fácil “vender a esperança”, trabalho dos vendedores de tratamentos não testados. “O que se tem é uma combinação de pseudociência e fraude”, considera Stephen Barrett, psiquiatra aposentado de Chapel Hill, na Carolina do Norte, que escreve sobre terapias médicas duvidosas em seu site Quackwatch.com. “Os pais estão sob grande estresse. E querem ajudar muito seus fi lhos a melhorar. Com o tempo, percebem uma recuperação, mas dão créditos às coisas erradas.” Esses ganhos não são decorrentes do “tratamento”, elucida o psiquiatra, mas do desenvolvimento da criança com o passar dos anos.
Proliferam na internet os vendedores de fórmulas mágicas. Um site afi rma que os pais podem “combater o autismo de seus fi lhos” ao comprar um livro de US$ 299; outro veicula um vídeo de “uma menina autista que apresenta melhoras após receber injeções de células- tronco”. Muitos pais confessam obter informações da internet e, segundo o cientista associado do Centro de Estudo Infantil de Yale, Brian Reichow, “vários deles se baseiam em relatos fantasiosos, amigos ou outros parentes”. “Quando se trata de autismo, a pesquisa não sobrepujou os tratamentos.”

Ter esperança também não custa barato. Tratamentos alternativos, como a câmara hiperbárica de oxigênio (empregada para reverter a doença da descompressão), que eleva por algum tempo os níveis de oxigênio sanguíneo, custam US$ 100 por hora ou mais, com uma ou duas sessões de uma hora recomendadas diariamente. As terapias de integração sensorial – que podem variar de envolver a criança em cobertores ou acomodá-la em uma máquina de abraçar para brincar com massas de modelar aromatizadas – podem custar até US$ 200 a hora. Os prestadores desses serviços chegam a cobrar US$ 800 a hora por uma consulta e milhares a mais por vitaminas, suplementos e exames laboratoriais. Pais sob monitoramento contínuo da Rede Interativa de Autismo, ligada ao Instituto Kennedy Krieger de Baltimore, relatam gastar uma média de US$ 500 mensais. O único tratamento para autismo que provou ser algo efi caz – a terapia do comportamento – pode também ser o mais caro, pelo menos US$ 33 mil anuais. Embora esses custos geralmente sejam cobertos por programas governamentais de intervenção precoce e pelas redes de escolas públicas, pode ser longa a espera por serviços e avaliações gratuitos. Dito isso, os custos médicos e não médicos do autismo crescem a uma média de US$ 72 mil ao ano, de acordo com a Escola de Saúde Pública de Harvard.

POÇÕES MÁGICAS

A NÃO COMPROVAÇÃO DOS TRATAMENTOS se estende às medicações. Alguns

médicos prescrevem drogas aprovadas para outras doenças. Os compostos incluem Lupron – bloqueador da produção orgânica de testosterona (nos homens) e estrogênio (nas mulheres) –, usado para tratar câncer de próstata e “castrar quimicamente” estupradores. Os médicos também receitam Actos, medicamento utilizado na diabetes, e imunoglobulina G intravenosa, geralmente administrada em pacientes com leucemia e aids pediátrica. Todas as três medicações têm graves efeitos colaterais, e sua efi cácia e segurança no combate ao autismo nunca foram testadas.
Outra terapia médica reconhecida que se transformou em “cura” para o autismo é a quelação, principal tratamento para intoxicação por chumbo. A droga converte chumbo, mercúrio e outros metais em compostos quimicamente inertes, que podem ser excretados pelo corpo via urina. Algumas pessoas acreditam que a exposição a esses metais, em particular o metilmercúrio (usado como conservante em vacinas), pode levar ao autismo, mesmo que nenhum estudo tenha demonstrado essa ligação. Na verdade, a taxa de diagnóstico de autismo continuou a crescer após a retirada do metilmercúrio da maioria das vacinas, em 2001. A quelação pode provocar insufi ciência renal, especialmente na forma intravenosa, a mais indicada para o autismo. Em 2005, um menino autista de 5 anos morreu, na Pensilvânia, após receber a quelação intravenosa

Em 2006, uma preocupação com esse quadro levou o Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH, na sigla em inglês) a anunciar planos para a realização de experimentos de quelação controlados aleatoriamente para autismo. Mas o Instituto engavetou o estudo em 2008, pois os pesquisadores não conseguiram encontrar “uma evidência clara de benefício direto”, e o tratamento colocava as crianças em um “risco superior ao mínimo”. Em parte, o receio dos cientistas do Instituto surgiu de estudos laboratoriais demonstrando problemas cognitivos em ratos que receberam a quelação e não apresentavam intoxicação por metais. “Não acho que alguém tinha muita fé nesse tratamento como a solução para um grande número de crianças”, adverte o diretor do NIMH, Thomas R. Insel. Seus pesquisadores, acrescenta, estão “mais interessados em testar medicamentos que apresentem uma base mecânica”.
Como era de esperar, o cancelamento do estudo alimentou acusações de que a Grande Ciência ignorava as terapias alternativas. Sempre se injetou mais dinheiro para descobrir novas curas que dão certo que para desacreditar aquelas que não funcionam. Até recentemente, a maior parte das investigações sobre autismo foi conduzida dentro dos campos das ciências sociais e da educação especial, áreas em que os orçamentos para pesquisa são modestos e os protocolos, muito diferentes dos empregados na medicina. Às vezes, há o envolvimento de somente uma criança no estudo. “Nem podemos chamar isso de evidência”, critica Margaret Maglione, diretora- associada do Centro Sul-californiano de Prática baseada em Evidência (ligada à corporação Rand).

Simplesmente não há uma pesquisa científi ca de ponta sobre tratamentos para autismo; quando existe, a quantidade de indivíduos estudados é, em geral, pequena. Em 2007, a Colaboração Cochrane, órgão independente avaliador da pesquisa médica, promoveu uma revisão das dietas livres de glúten e caseína, baseadas na premissa de que os compostos presentes na caseína, uma proteína láctea, e no glúten, uma proteína do trigo, interferem nos receptores cerebrais. A Cochrane identifi cou dois experimentos clínicos muito pequenos, um com 20 participantes e outro com 15. O primeiro estudo revelou certa redução nos sintomas de autismo; o segundo nada encontrou. Um novo exame leatoriamente controlado em 14 crianças, publicado em maio deste ano por Susan Hyman – professora-associada de pediatria da Escola de Medicina e Odontologia da University of Rochester –, não identifi cou alterações nos padrões de atenção, sono e evacuação, nem no comportamento autista característico. “Paulatinamente, acumulam- se indícios de que (a dieta) não traz tantos benefícios quanto o esperado”, explica Susan E. Levy, pediatra do Hospital Infantil de Filadélfi a, que fez a análise das evidências em conjunto com Hyman.
É a primeira vez que Levy sente na pele o nível de esforço necessário para mudar a opinião pública. A secretina tornou-se uma commodity em alta depois de um estudo, em 1998, apontar que três crianças apresentarammelhoras no contato visual, no grau de alerta e no uso signifi cativo da linguagem, após receberem o hormônio durante um procedimento diagnóstico para complicações gastrintestinais. A imprensa, incluindo o Good Morning America e o Ladies’ Home Journal, divulgou relatos exultantes de pais que viram seus fi lhos transformados. O Instituto Nacional de Desenvolvimento Humano e Saúde Infantil se apressou em fi nanciar experimentos clínicos. Até maio de 2005, cinco estudos clínicos aleatórios não haviam conseguido revelar qualquer benefício, e o interesse pela secretina desapareceu. Passaram anos para pôr um ponto fi nal nessa história, revela Levy, que auxiliou na condução de várias dessas experiências: “A pesquisa é muito trabalhosa e o progresso pode ser lento”. Os pais podem se sentir desamparados, acrescenta a pediatra, e “querem esgotar todas as alternativas possíveis”.

A boa notícia é que a maior demanda por terapias comprovadas está atraindo investimentos para pesquisa. Em 2001, quando se realizou o primeiro Encontro Internacional para Pesquisa em Autismo, não havia mais que 250 participantes. Em maio último, na Filadélfi a, 1,7 mil pesquisadores, estudantes de graduação e defensores dos interesses de pais participaram do congresso. Novas tecnologias e uma ampliação da consciência da população ajudaram o autismo a se tornar um objeto de pesquisa mais atrativo. E, em meados dos anos 1990, os pais começaram a adotar sofi sticadas táticas de lobby e arrecadação de fundos, empregadas para aids e câncer de mama, recorrendo a fundações e ao governo federal. Como resultado, na última década o fi nanciamento para pesquisa em autismo nos Estados Unidos subiu 15% ao ano, com ênfase nas aplicações clínicas. Em 2009, os Institutos Nacionais de Saúde alocaram US$ 132 milhões em recursos para o trabalho com autismo, com um adicional de US$ 64 milhões decorrentes da Lei para a Recuperação e Reinvestimento Americanos [American Recovery and Reinvestiment Act]; boa parte dessa verba é destinada ao desenvolvimento de protocolos de pacientes e outras ferramentas investigativas. Em 2008, as fundações privadas, incluindo a Fundação Simons e a Autism Speaks, ontribuíram com US$ 79 milhões. Segundo a Autism Speaks, investiram-se aproximadamente 27% de todos os recursos em tratamentos investigativos; 29%, nas causas; 24%, em biologia básica; 9%, em diagnóstico.
Essas buscas recentes reúnem esforços para descobrir se a intervenção precoce com terapias do comportamento – que ensinam habilidades sociais por meio do reforço e recompensa – pode ser usada de maneira bem-sucedida em crianças muito novas, quando o cérebro é mais fl exível ao aprendizado da linguagem e da interação social. Um estudo conduzido por várias universidades, lançado on-line em novembro de 2009, revelou ganhos substanciais nas habilidades linguísticas, na realização de atividades cotidianas e no QI (17,6 pontos, em comparação com 7 pontos no grupo-controle) de crianças submetidas à terapia comportamental por 31 horas semanais, durante dois anos, começando quando tinham entre 18 e 30 meses. Sete das 24 crianças no grupo de tratamento melhoraram tanto que seu diagnóstico evoluiu de autismo para “sem outra especifi cação”, a forma mais leve; somente uma criança das 24 expostas a outras intervenções recebeu um diagnóstico mais brando. A Rede de Tratamento de Autismo criou um registro de mais de 2,3 mil crianças, a fi m de pesquisar tratamentos para as complicações médicas habitualmente sofridas por autistas (em particular problemas gastrintestinais e difi culdades no sono), e planeja desenvolver guias passíveis de ser usados por pediatras nos Estados Unidos.
POR UMA CIÊNCIA REAL DO AUTISMO NO AFÃ DE ENCONTRAR EDICAMENTOS, incluindo aqueles usado sem outros distúrbios neurológicos, obstáculos mais difíceis devem ser vencidos. As intervenções médicas até agora foram “um pouco desanimadoras”, lamenta Insel. Antidepressivos, por exemplo, que estimulam a produção cerebral de serotonina, um neurotransmissor, são muito efi cazes em reduzir os movimentos de mão repetidos nos transtornos obsessivocompulsivos, mas, em agosto, uma revisão patrocinada pela Colaboração Cochrane revelou que essas drogas não aliviaram os movimentos repetidos típicos do autismo. Entre as novas candidatas estão uma medicação que desencadeia o sono de movimento rápido dos olhos, ausente na criança autista, e a ocitocina, um hormônio indutor do parto e da lactação que, supostamente, estimularia os laços entre mãe e fi lho. Em fevereiro, estudo publicado pelo Centro Nacional de Pesquisa Científi ca francês descobriu que, após inalar ocitocina, 13 adolescentes portadores de Asperger apresentavam um melhor desempenho na identifi cação de imagens faciais. Mas, entre as evidências encontradas em um único estudo e a noção de que essa droga poderia aliviar os sintomas mais devastadores do autismo, há uma enorme distância. Nas palavras de Insel, “temos muito trabalho a fazer”.


E esse trabalho está começando a ser realizado. Em junho, uma associação de pesquisadores analisou os genes de 996 crianças da primeira à quinta série escolar e descobriu novas e raras variações genéticas em autistas. Muitas dessas imperfeições afetam genes que controlam a comunicação através das sinapses – os pontos de contato entre neurônios no cérebro, foco central das investigações sobre autismo. “As presentes mutações são diferentes [entre os indivíduos], mas há algumas vias biológicas em comum”, segundo Daniel Geschwind, um dos coordenadores dessa pesquisa e professor de neurologia e psiquiatria da Escola David Geff en de Medicina da UCLA. Geschwind é também fundador do Autism Genetic Resource Exchange, um banco de dados utilizado no estudo com amostras de DNA de mais de 1,2 mil famílias com casos de autismo. Os exames para confi rmar um culpado – ou comprovar tratamentos que possam corrigir as variações – ainda estão longe de ocorrer.
Por enquanto, os pais devem cada vez mais optar por não fazer experiências em seus fi lhos, isso se conseguirem dormir tranqüilos à noite. Quando seu fi lho, Nicholas, foi diagnosticado aos 2 anos, Michael e Alison Giangregorio, moradores de Merrick (estado de Nova York), decidiram usar somente tratamentos com bases científi cas, como a análise comportamental aplicada. “É muito difícil e desafi ador ajudar meu fi lho”, desabafa Michael. “Não estava disposto a tentar terapias experimentais. Era meu dever aplicar somente aquilo em que médicos e pesquisadores despenderam tempo para comprovar o funcionamento e provar que não causaria nenhum dano adicional.” Hoje, Nicholas tem 9 anos e, embora permaneça não verbal, a terapia do comportamento o ensinou a usar sinais físicos para indicar quando precisa ir ao banheiro. Agora, ele pode lavar suas mãos, sentar-se à mesa em um restaurante e caminhar pelos corredores de uma farmácia sem fi car batendo palmas. “Obviamente, o objetivo da minha e da maioria das famílias é levar a vida mais normal possível”, relata Michael, executivo de Wall Street, de 45 anos. “Normal é sair para jantar com a família.”

Mãe de duas crianças com autismo tem dificuldade para encontrar escola para os filhos

Portadores de grau leve do transtorno que afeta a comunicação, os dois irmãos foram rejeitados por colégios da Capital

Marcelo Gonzatto

marcelo.gonzatto@zerohora.com.br
 
 
 
Encontrar uma escola para seus dois filhos — uma menina de seis anos e um menino de três — se transformou em drama para uma mãe em Porto Alegre. Portadoras de um grau leve de autismo, as crianças já foram rejeitadas em duas escolas particulares próximas de sua casa. Agora, a mãe pensa em se mudar para perto de um colégio que aceite o casal de irmãos. Motivado por casos como esse, o Ministério Público Estadual (MPE) tem um inquérito civil sobre inclusão escolar em andamento na Capital.
A mãe das crianças, Alessandra Araújo Gudolle, conta que a menina atualmente cursa a 1ª série do Ensino Fundamental no colégio Pastor Dohms, no bairro Cavalhada, onde mora. Porém, como a escola vai se transferir para outra região da cidade, Alessandra se viu obrigada a procurar um novo estabelecimento para Júlia fazer a 2ª série, e o irmão menor, Eduardo, ingressar na pré-escola. Até agora, não teve sucesso.
Na primeira tentativa, no colégio Santa Tereza de Jesus, no bairro Cavalhada, diz ter ouvido da direção que o estabelecimento “não faz inclusão”. Argumentou que os sintomas dos dois filhos são amenos e se manifestam como uma espécie de timidez mais intensa, sem necessidade de equipe especial de atendimento ou de adaptações físicas da escola. Nem mesmo foram recebidos para uma visita às dependências.
A família se encheu de esperança após uma visita a outro estabelecimento próximo, o Maria Imaculada, localizado no bairro Praia de Belas. Fizeram uma primeira visita ao local, onde já estuda cerca de uma dezena de alunos portadores de deficiências físicas ou mentais. Porém, um dia depois, Alessandra foi chamada e informada de que não poderia fazer a matrícula. A dupla rejeição abalou a pequena estudante. Como sua escola vai mudar de endereço, praticamente todos os colegas já anunciam entre si onde vão estudar ano que vem — menos Júlia.
 
— Eu digo para a minha filha que os colégios não têm vaga para ela. Mas todos os outros colegas já comentam sobre a escola onde vão estudar no ano que vem. Ela chora e tem dificuldade para dormir à noite — revela Alessandra.

Especialista destaca o estudo em escola regular
A pedagoga Adriana Latosinski Kuperstein, especializada em autismo, afirma que a inclusão escolar é fundamental para o desenvolvimento das habilidades.
— Estudar em uma escola regular melhora o prognóstico. Além disso, o tratamento precoce tende a amenizar os sintomas a ponto de que, em muitos casos, só os familiares e especialistas conseguem detectar o autismo — comenta Adriana.
Como o médico da família não recomenda grandes deslocamentos para os irmãos no caminho para a escola, a mãe agora cogita se mudar a fim de que a menina continue estudando no Pastor Dohms ou em outra escola que a aceite.
— Muitas pessoas acham que autista é aquela pessoa que bate a cabeça e grita. Mas isso é um estereótipo. Minha filha tem avaliações excelentes na 1ª série — afirma Alessandra.
Inclusão de deficientes é apenas parcial
A legislação estabelece que a política educacional brasileira deve privilegiar a inclusão de portadores de deficiência no sistema regular de ensino. Porém, a falta de uma determinação mais explícita sobre a obrigatoriedade de matrículas faz com que a inclusão escolar seja apenas parcial.
Por meio de um inquérito civil, o Ministério Público Estadual acompanha há cerca de dois anos relatos semelhantes aos de Alessandra. Foi estabelecida uma comissão com as secretarias da educação do Estado e de Porto Alegre, entidades de defesa dos direitos de portadores de deficiência e do Sindicato dos Estabelecimentos do Ensino Privado do Estado (Sinepe).
— Estamos em uma fase de transição, em que as escolas públicas e privadas ainda não conseguem atender a toda diversidade de situações. Por isso, a solução razoável foi montar um cadastro com que tipo de deficiência cada estabelecimento pode lidar. Espero receber o resultado final em breve — diz a promotora da Infância e da Juventude Synara Buttelli.
Synara afirma que, apesar de a legislação pregar a inclusão, é preciso ter compreensão quando a deficiência do aluno exigir uma estrutura física ou de pessoal inexistente. Nesse caso, segundo ela, fica difícil cobrar a matrícula. Porém, quando a deficiência é considerada leve, em tese não haveria razão para negar o acesso:
— Do ponto de vista legal, existe, sim, o direito de a criança ser incluída no ensino regular. Infelizmente, isso não ocorre de uma hora para outra.
O presidente do Sinepe, Osvino Toillier, afirma que há mais de um ano não há relatos de recusa de matrícula.
— Entendemos que a escola particular deve ser inclusiva, mas não há como todas elas atenderem a todos os tipos de deficiência — ressalva.

Contrapontos

O que diz Rosane de Almeida, coordenadora pedagógica da 1ª etapa do colégio Maria Imaculada

“A escola trabalha com vários casos de inclusão, desde o maternal até o Ensino Médio. O que ocorreu é que, neste momento, chegamos ao nosso limite para que a gente possa fazer um atendimento qualificado. Devido à questão do nosso número de profissionais, não temos, no momento, como aceitar novos casos. Queremos ampliar, mas precisamos fazer isso com respeito e responsabilidade, principalmente em relação às crianças que já atendemos.”
O que diz a direção do colégio Santa Teresa de Jesus
Zero Hora deixou três recados com a direção do estabelecimento, ontem à tarde, mas não obteve retorno.





 
 
 
 
 

O Governo Baiano e os autistas

Impressiona a insensibilidade de setores do governo estadual ante a situação das entidades criadas para o atendimento a autistas e seus familiares. Depois de uma luta insana, representantes dos autistas conseguiram ver aprovada pela Assembleia Legislativa da Bahia a lei 10.553/07, de autoria do ex-deputado Padre Joel, que obriga a destinação de verbas de apoio à ação daquelas instituições, mas o governo até hoje não atendeu à determinação legal.

Com isto, tivemos o triste registro, na semana passada, do encerramento das atividades da Associação Autista de Feira de Santana, fechada há dois meses. E, em Salvador, a Associação Baiana de Autismo (ABA) e a Associação dos Amigos do Autista da Bahia (AMA), pioneira no Estado, convivem com grandes dificuldades e muitos pais de portadores da doença tem sido obrigados a recorrer à Justiça para garantir tratamento gratuito dos seus filhos.
Somente na AMA, que já atende a cerca de 100 autistas, existe uma lista de espera com mais de 300 nomes. Curioso é que o governo baiano não dá explicações porque tem tanta resistência a apoiar causa tão nobre e necessária. Simplesmente nega.

Espaço Articulado

Decisão inédita da imigração tira mãe e filho autista da fila de deportação

Wilson e a mãe Valquires, lutaram por mais de 20 anos para permanecerem nos Estados Unidos.
 


Valquires Geraldes com o filho Wilson Geraldes, que sofre de autismo, sofreu por mais de duas décadas o temor de ser deportada.

Um pesadelo que rondou uma família brasileira de Austin (TX) por mais de duas décadas chegou ao fim no mês passado. Depois de praticamente ver a deportação de perto, Valquires Geraldes e seu filho, Wilson Geraldes, 24, vão finalmente poder solicitar o green card. O rapaz é portador de autismo severo e teria sérios abalos na saúde, se tivesse que deixar o país.

A notícia foi publicada no The Californian. Segundo Simon Azar-Farr, advogado da família, um juiz de imigração de San Antonio encerrou o processo de deportação de mãe e filho. “Foi um pesadelo”, disse Valquires, sobre toda a ansiedade vivida durante mais de 20 anos de espera.
Segundo a imigração, Valquires e Geraldes entraram no país em 1987 sem sofrer inspeção, e acusou-os ainda de não ter um visto válido. Os dados constam em um documento sobre o caso, datado de 2008. De acordo com Azar-Farr, os dois já estavam aptos para solicitar o documento de residência permanente. “Eu estava para (ser obrigada a) deixar o país, e estava apavorada. É como um sonho se realizando”, disse a brasileira.


A imigração não costuma comentar casos individuais. Por esta razão, a porta-voz Maria Elena Garcia-Upson não falou sobre a decisão. De acordo com Elaine Komis, do Escritório Executivo para Revisão de Imigração, os processos de deportação não ficam disponíveis para informação pública.



O advogado Azar-Farr também procurou manter a discrição. Disse apenas que o juiz considerou a grave condição de saúde de Wilson, tomando como base razões humanitárias. “O governo deveria ser cumprimentado por ter sido tão sério e cuidadoso neste caso e em seus fatos, e por ter exercido seu poder de forma favorável”, disse ele.

Família em paz



Segundo Farr, os brasileiros jamais deveriam ter entrado em processo de deportação. O profissional acredita que outro advogado tenha errado, ao não perceber que Valquires e o filho poderiam se legalizar através de Wilson, marido de Valquires, o qual é portador do green card desde o ano de 1990. “Você nunca, nunca perde a esperança. Eu tinha esperança porque meus papéis estão em ordem”, disse Wilson pai.
Por causa do autismo, Wilson Geraldes depende dos pais para as necessidades básicas, e nunca pode ficar sozinho. Segundo os médicos, morar no Brasil afetaria sua estabilidade. Azar-Farr disse ainda que seu bem-estar estaria em perigo, pois o Brasil não ofereceria o tratamento médico adequado ao rapaz.
O ICE (imigração) chegou a permitir, por mais de uma vez, a permanência temporária de Valquires e Wilson no país. Através da prática, chamada de deferred action, a imigração decide que não é interesse do público ou do governo deportar alguém de imediato. Segundo uma porta-voz da imigração, para manter os brasileiros no país, mesmo que de forma temporária, foram levados em consideração fatores como impacto na família e dificuldades de tratamento médico no país de origem.
Enquanto comemora a decisão, Valquires lembra que os milhares de dólares gastos com o caso da família seriam o suficiente para comprar uma casa. Bem humorado, o marido dela disse que imagina imprimir os green cards da esposa e do filho em tamanho gigante, para simplesmente contemplar o documento.
Os planos do casal são de solicitar um cartão de Social Security para o filho. Desta forma, Wilson pode participar de programas sociais fora de casa e interagir com outras pessoas.






DESENVOLVIMENTO INFANTIL:

ABORDAGEM PARA PROFISSIONAIS DA ÁREA DA SAÚDE



Data: 04 de dezembro de 2010 (sábado)
Horário: 9:00hs às 18:00hs
Local: R. General Almério de Moura, nº. 780- auditório
Real Parque – Morumbi – SP

Publico alvo: pediatras, psicólogos, psiquiatras, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais

Programa:

DIAGNÓSTICO NO CUIDADO PRIMÁRIO

9:00-10:30hs


Reconhecimento precoce de sinais de alteração no desenvolvimento neuro-psico-social da criança


Caia Pacifico
10:30-10:45hs

Café

10:45-12:15hs
Relação mãe-bebê: desenvolvimento do psiquismo
Maria da Graça Palmigiani

12:30-14:00hs
ALMOÇO

14:00-15:30hs
Apresentação e discussão de vídeos: um novo "olhar"
Jael Breitschwerdt


15:30-15:45hs

CAFÉ

16:00-17:30hs


Apresentação e discussão de caso – como o pediatra pode encaminhar a criança com "sinais" de algum transtorno em seu desenvolvimento neuro-psico-social?


Roberto Bittar

Antecipe sua inscrição. Vagas limitadas.

Investimento:
Até 30/10 – R$180,00
Até 20/11 – R$ 200,00

Informações para depósito:
Banco: Itau
Agencia:3186
Conta:15759-4

Enviar comprovante de deposito por e-mail, nome, RG,profissão e telefone
tatarissi@hotmail.com

Inscrições e informações: Thais (11) 76530130 ou 76505392

Espaço Aberto Saúde mostra os esforços feitos para tirar o autista do isolamento

A doença requer tratamento com equipe multidisciplinar. E os pais que não entenderem o mecanismo do transtorno podem maximizar o problema.


O Espaço Aberto Saúde desta terça-feira (23) vai falar sobre o autismo. A criança que tem a doença nasce aparentemente normal, mas, à medida que vai crescendo, não se comunica. Vive num mundo paralelo. O olhar vazio não percebe as pessoas à volta. Não tem o primeiro sorriso. Não tem a primeira palavra. Repete movimentos incessantemente. Os meninos são a maioria dos casos.

Em abril de 2010, a ONU declarou que a doença atinge cerca de 70 milhões de pessoas em todo o mundo. O autismo afeta, em média, uma em cada 150 crianças nascidas. Nos Estados Unidos, é dado um diagnóstico a cada 24 minutos. No Brasil, ainda não há estatísticas. Estima-se em um milhão o numero de pessoas que tem o problema.

Buscar informações e procurar ajuda de especialistas ainda é a forma mais indicada para lidar com a situação: a de uma doença que hoje não tem cura. Você vai ver os esforços feitos para tirar o autista do isolamento.

A doença requer tratamento com equipe multidisciplinar. Fonoaudiólogo e psicólogo comportamental são fundamentais para apoiar o paciente. E os pais que não entenderem o mecanismo do transtorno podem maximizar o problema.

Os médicos apontam a educação especializada como uma das maiores ferramentas para ajudar no desenvolvimento de uma criança autista.

Nos Estados Unidos, cientistas brasileiros anunciam uma descoberta que estabelece uma causa biológica para o distúrbio no cérebro. Essa pesquisa libera os pais de um peso que carregam - o de achar que não deram um amor necessário ao filho.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Nasce bebê de John Travolta, depois de trágica morte do filho

LOS ANGELES (Reuters) - O ator John Travolta e sua esposa, Kelly Preston, anunciaram na terça-feira o nascimento de seu terceiro filho, um menino. O bebê nasceu quase dois anos depois da morte do primeiro filho do casal Jett, aos 16 anos.

O bebê, chamado Benjamin, nasceu em um hospital na Flórida na noite de terça-feira pesando mais de 3,6 quilos, segundo comunicado do agente de Travolta.
'John, Kelly e sua filha Ella Bleu estão extasiados e muito felizes com o mais novo membro da família. Mãe e bebê estão com saúde e muito lindos', disse o comunicado.

Jett, o primeiro filho de Travolta, de 56 anos, e Preston, de 48, morreu depois de uma convulsão em janeiro de 2009 quando a família passava as férias nas Bahamas. Travolta confirmou depois da morte que Jett era autista.

O astro de 'Pulp Fiction' e 'Grease - Nos Tempos da Brilhantina' e sua esposa, também atriz, passaram um ano fora dos holofotes depois de ficarem de luto por Jett. A família também foi vítima de um suposto plano de extorsão de 25 milhões de dólares sobre a morte, que terminou em um julgamento inconclusivo.

Travolta estava de volta ao tapete vermelho em janeiro para promover seu filme 'Dupla Implacável', de comédia e aventura, e Preston atuou no filme de Miley Cyrus, 'A Última Música', em abril.

Experimento liga forma de autismo a DNA saltador

Os trechos de DNA apelidados pelos cientistas de "genes saltadores" -- capazes de copiar a si próprios para outros pedaços do genoma de um indivíduo -- estão relacionados a uma forma grave de autismo hereditária. A descoberta, descrita hoje pelo grupo do biólogo brasileiro Alysson Muotri em estudo na revista "Nature", foi feita num experimento que produziu neurônios dos portadores da doença a partir de amostras de pele.

O trabalho é o segundo artigo de impacto assinado por Muotri, professor da Universidade da Califórnia em San Diego, em menos de uma semana. Seis dias atrás, o cientista divulgou estudo mostrando como os neurônios "autistas" têm problemas para se interconectarem. Agora, ele relaciona o autismo a uma instabilidade genética, pois os chamados retrotransposons -- os "genes saltadores" -- podem bagunçar o DNA de uma célula e alterar seu funcionamento.



Para reproduzir o neurônios autistas em culturas de células dentro de um pires de laboratório, Muotri usou a mesma técnica nos dois trabalhos. Seu grupo fez células de pele adultas reverterem a um estado primitivo, similar ao de um tecido embrionário, e depois as estimulou a se desenvolverem assumindo a forma de neurônios.

Essa ferramenta usada no experimento, as células iPS (células-tronco de pluripotência induzida), revelou-se perfeita para estudar a doença, pois não seria possível extrair amostras de células vivas do cérebro de uma pessoa para entender seu desenvolvimento.
"Ao investigar como os genes saltadores são ativados especificamente no sistema nervoso, descobrimos que eles eram silenciados por uma proteína chamada MeCP2, que aparece de forma mutante na variação de autismo conhecida como síndrome de Rett", conta Muotri. A mutação na proteína, então, estaria implicada na proliferação dos retrotransposons.
Antes do experimento com as células iPS, Muotri já tinha obtido resultado similar usando camundongos transgênicos, portadores da mutação no gene estudado. "Criamos um modelo de cérebro tridimensional e descobrimos que as regiões do cérebro com maior número de neurônios afetados eram regiões relacionadas com os fenótipos [traços físicos] da síndrome de Rett", conta o cientista.
Muotri, porém, afirma que ainda é cedo para dizer o que é causa e o que é consequência no estudo de pacientes de autismo. "A gente confirmou que existem mais retrotransposons atuando no cérebro desses crianças, mas nós não temos ainda como estabelecer causalidade", diz. "Pode ser que eles não estejam causando o autismo. Pode ser que estejam contribuindo para algumas formas de autismo, apenas."

Segundo o pesquisador, porém, a descoberta abre caminho para que se teste estratégias diferentes de tratamento no futuro. Medicamentos normalmente usados para atacar vírus (inibindo a cópia e multiplicação de DNA) poderiam eventualmente deter a proliferação desenfreada dos genes saltadores.
A ação dos retrotransposons no cérebro humano, contudo, pode não ser totalmente maléfica. O efeito benéfico, especula Muotri, seria o de conferir diversidade e complexidade aos neurônios, permitindo que a mente humana se estruture de maneira tão sofisticada. Talvez por isso a evolução os tenha preservado, apesar dos riscos.

Encontro!!!

Caros amigos, caras amigas:

A Afaga - Associação de Familiares e Amigos da Gente Autista - promove os primeiros Encontros de Afago para Familiares de Gente Autista agora, nos dias 20 de novembro e 4 de dezembro, das 8h30 às 12h00. Os encontros se realizarão no Centro de Atendimento Educacional Especializado Pestalozzi da Bahia.

 
 Haverá cuidadores para apoio e um café da manhã.

 
O objetivo destes encontros é a troca de experiências e a formalização de propostas para o acolhimento social das pessoas autistas em nossa sociedade.

 
Solicitamos a gentileza de divulgar.

 
 Inscrições: http://www.afaga.com.br

 
Encontros de Afago

 
  • Dia: 4 de dezembro, sábado
  • Horário: 8h30 às 12h00  
  • Local: Auditório do CAEE Pestalozzi da Bahia
  • Av. Ademar de Barros, Ondina, Salvador, em frente ao portão da UFBA

Mais esclarecimentos, com Mariene (9956-1736) ou comigo, Argemiro (8798-6975) ou pelo site

 
http://www.afaga.com.br

 
Apoio

 
Associação Vida Brasil e vereadora Vânia Galvão

 

Argemiro Garcia

 Salvador, Bahia, Brasil

Coordenador da Afaga - Associação de Familiares e Amigos da Gente Autista

 

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Crianças autistas podem ser afetivas

Bom amigos, sei ainda muito pouco sobre autismo mais o suficiente pra ter a plena convicção de que "crianças autistas são afetivas sim". Meu Hermano ainda não fala (3 anos) mais acredito que além da medicina existe um medico que opera milagres DEUS. E quando chegar o momento ele vai se comunicar perfeitamente há sua maneira claro!! Meu filho tem diversos movimentos estereotipados bater de pés no chão, em alguns momentos da tapinha no rosto dele mesmo, em alguns momentos agita as mãos, é muito agressivo, inquieto... Mais se comunica a sua maneira e contrariando alguns médicos atendo todos os seus pedidos quando me usa de instrumento pra conseguir o que quer, afinal, dessa forma ele se comunica.


Ele é muito carinhoso, adora beijo na boca, adora dormir grudado em minhas costas, tem um travesseirinho que não larga por nada desse mundo kkkkkk e só aceita duas fronhas, ele é sensível a ponto de perceber quando algo ta errado entre eu e o seu pai (quando brigamos ele se agita muito).

Diante de diversas matérias relacionadas à falta de afeto sinto-me na obrigação de expor minha opinião que é contraria. Vejo nos olhos do meu filho a sua paixão, confiança, admiração, que tem por mim e como se sente frágil quando me afasto por algum tempo (até pra ir ao mercado se deixo ele chora, mesmo que eu saia nas escondidas, quando nota minha ausência ele chora).



Então amigos amem sem limites sem filhos sendo eles autistas ou não, por que na verdade são todos humanos, gerados da mesma forma, amamentados da mesma maneira...



Autistas amam sim!



ProgramaÇÃo do VI FÓrum Senado Debate Brasil

     ProgramaÇÃo do VI FÓrum Senado Debate Brasil

     ConvenÇÃo da ONU Sobre os Direitos das Pessoas com DeficiÊncia
      – Uma ConstituiÇÃo Viva e Cidadà –
            Brasília/DF

Dia 8 de dezembro – 4ª feira

9h – Cerimônia de abertura

Autoridades do Legislativo e do Executivo


10h – Painel 1: O processo de elaboração da Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência

Izabel Maria Madeira de Loureiro Maior – Secretária Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência (SNPDPD), da Secretaria dos Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República.


10h30min – Painel 2: Quem são, onde estão e o que fazem os brasileiros com deficiência


Denise Costa Granja – Presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência (CONADE).

Eduardo Pereira Nunes – Presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Alicia Bercovich - Servidora do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).


11h – Painel 3: O conceito de pessoa com deficiência segundo a Convenção da ONU

Débora Diniz Rodrigues – Professora do Departamento de Serviço Social da Universidade de Brasília (UnB).

Ana Paula Crosara de Resende – Advogada e Diretora de Políticas Temáticas da Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência (CORDE), da Secretaria dos Direitos Humanos (SEDH) da Presidência da República.



11h30min – Debate (Painéis 1, 2 e 3)

12h – Intervalo para almoço


14h – Painel 4: A Convenção da ONU e a questão da inclusão social das pessoas com deficiência – foco: acessibilidade, habilitação e reabilitação


Mara Cristina Gabrilli – Vereadora do Município de São Paulo (SP).

Patrícia Almeida – Coordenadora-Geral da Inclusive, Agência para Promoção da Inclusão – Nova York, Estados Unidos.


14h30min – Painel 5: A Convenção da ONU e a questão da educação da pessoa com deficiência

Marthinha Clarete Outra dos Santos - Diretora de Políticas de Educação Especial do Ministério da Educação.

Senador Flávio Arns – Presidente da Subcomissão Permanente de Assuntos Sociais das Pessoas com Deficiência (CASDEF) da Comissão de Assuntos Sociais do Senado (CAS).

15h – Painel 6: A Convenção da ONU e a questão da capacitação para o trabalho e emprego da pessoa com deficiência


Maria Aparecida Gugel – Subprocuradora-Geral do Ministério Público do Trabalho.


15h30min – Debate (Painéis 4, 5 e 6)

16h – Intervalo


16h15min – Painel 7: A Convenção da ONU e a questão da saúde das pessoas com deficiência – foco: processo de envelhecimento, prevenção de deficiências e intervenção precoce

Lúcia Willadino Braga – Presidente da Rede SARAH de Hospitais de Reabilitação.


16h45min – Painel 8: A Convenção da ONU e a questão da pesquisa, da tecnologia e das ajudas técnicas


Marco Antônio Pellegrini – Secretário Adjunto da Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo.

Patrícia Neves Raposo – Professora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília e coordenadora do Grupo de Trabalho Educação Especial e Inclusiva do Programa de Apoio às Pessoas com Necessidades Especiais da UnB.


17h15min – Painel 9: Pesquisa de opinião sobre a eficácia da legislação e dos programas existentes e o exercício da fiscalização

Ana Lúcia Novelli – Diretora da Secretaria de Pesquisa e Opinião Pública do Senado Federal (SEPOP).

Teresa Costa d'Amaral – Superintendente do Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência (IBDD).

18h – Debate (Painéis 7, 8 e 9)




Dia 9 de dezembro – 5ª feira


9h – Conferência – A Convenção da ONU sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência no plano nacional e internacional

Joelson da Costa Dias – Ministro do Tribunal Superior Eleitoral.

José Antônio Dias Toffoli – Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

Paulo de Tarso Vannuchi – Ministro Chefe da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH).

Ricardo Tadeu Marques da Fonseca – Desembargador do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 9ª Região.

Moderado pela jornalista Flávia Cintra, especialista em inclusão.

12h – Encerramento


Para inscrição acesse o site: http://www.interlegis.gov.br/inscreve_candidato_form?cod_evento=66

Doença mental faz menina carinhosa se transformar em "monstro" em poucos minutos

Criança inglesa, de 9 anos, sofre de alteração genética rara que faz com que ela fique violenta e ataque outras pessoas e a si mesma. Para evitar machucados durante as crises, ela ganhou um quarto estofado

Difícil acreditar que a menina doce e carinhosa de rostinho angelical possa atacar alguém com violência e, o que é pior, de uma hora para outra. Mas é isso o que acontece com menina inglesa Grace Fishwick, de 9 anos, que sofre de uma alteração genética rara chamada de Síndrome de Smith-Magenis (SMS). Ela tem crises agressivas desde os primeiros anos de vida, mas à medida que cresce, os episódios estão se tornando mais frequentes e perigosos - até 10 vezes por dia, segundo a família.


Para desespero dos pais da menina, os ataques podem ocorrer várias vezes ao dia. Ela agride a família e também a si mesma. Por causa disso, os pais fizeram para a menina um quarto estofado. O objetivo é evitar que ela se machuque durante as crises. A mãe da garota, Lisa, 33, de Erdington, interior da Inglaterra, compara a criança ao personagem de O Médico e o Monstro. "Em um minuto, ela está brincando alegremente com seus brinquedos, no outro, nos agredindo ou atacando a si mesma", disse ao jornal Daily Mail.


Os episódios podem durar de alguns minutos a três horas, de acordo com os pais. No resto do tempo, entretanto, Grace é uma menina carinhosa, que adora cantar, dançar e, claro, sua cor preferida é rosa.


A SMS afeta uma a cada 25 mil crianças e costuma ser confundida com autismo pelos médicos. "É devastador assistir a autoflagelação da minha filha, sabendo que não há nada que possa fazer", disse a mãe.

Crack avança na classe média e entra na agenda política

Devastador como nenhuma outra droga no Brasil, ele se espalha pelo país e demanda ações mais contundentes das autoridades

A tragédia do crack não é nova para o Brasil. Há anos, o país convive com o drama de violência e morte. Novo e oportuno, contudo, é o fato de a elite política do país, enfim, reconhecer a emergência do problema. No último dia 31, em seu primeiro discurso como presidente eleita, Dilma Rousseff disse que o governo não deveria descansar enquanto "reinar o crack e as cracolândias". Poderia ter falado genericamente "drogas", mas referiu-se especificamente ao "crack". Não foi à toa. Estima-se que no mínimo 600.000 pessoas sejam dependentes da droga no país - variante devastadora da cocaína que, como nenhuma outra, mata 30% de seus usuários no prazo máximo de cinco anos.


A praga do crack nasceu e grassou entre os miseráveis, a tal ponto que "cracolândia" virou sinônimo de "local onde pobres consomem sua droga". É mais do que tempo de rever esse conceito. Pesquisa da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo divulgada em 2009 constatou que o crack avança rapidamente entre os mais abastados: o crescimento entre pessoas com renda superior a vinte salários mínimos foi de 139,5%. Além dos números, os dramas pessoais confirmam que a química do crack corrói toda a sociedade. Nas clínicas particulares, que custam aos viciados que tentam se livrar da cruz alucinógena milhares de reais ao mês, multiplicam-se universitários, empresários, professores, militares. Todos estão reunidos pelo mesmo mal e almejam idêntico objetivo: tirar a pedra do meio do caminho de suas vidas.

O crack se espraia pelas classes sociais e pelas paragens brasileiras. "Antes, São Paulo era o reduto. Falava-se do assunto como um fenômeno paulistano. Agora, ele chega com força em outras cidades e estados", diz Dartiu Xavier, coordenador do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Embora não haja números precisos sobre consumo, os dados sobre apreensão da droga permitem concluir que cada vez mais gente é ferida pela pedra. Segundo dados da Polícia Federal, em 2009, foram apreendidos 513 quilos da droga - volume 43 vezes superior ao registrado no início da década.


Embora tardias, duas pesquisas em andamento na esfera do governo federal explicitam a preocupação das autoridades com a questão. Uma, a cargo do Ministério da Saúde, vai traçar o perfil do usuário de crack. Outra, nas mãos da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), pretende determinar padrões de consumo, barreiras para o tratamento e histórico social e médico de 22.000 usuários - que farão testes de HIV, hepatites (B e C) e tuberculose. Paulina Duarte, secretária adjunta da Senad e responsável técnica pelo estudo, acredita que será a maior pesquisa já realizada no mundo sobre o crack. "Um estudo dessa magnitude vai produzir um banco de dados gigantesco", diz.

O levantamento pode ser um esforço hercúleo, mas não escapa das críticas dos especialistas. Ronaldo Laranjeira, psiquiatra da Associação Brasileira de Psiquiatria, diz que o governo deveria substituir pesquisas por ações. "Há doze anos, a comunidade científica aponta que o crack é uma droga diferente. Para que gastar dinheiro com um grande levantamento quando o que precisamos é de ação e de propostas?", questiona. O governo contra-ataca. Lembra que, em maio, lançou o Plano Integrado para Enfrentamento do Crack e outras drogas, com investimento estimado em 410 milhões de reais em pesquisa, prevenção, combate e tratamento.


Droga nefasta - "Comparado a outras drogas, o crack é sem dúvida a mais nefasta, porque produz rapidamente a dependência: sob a compulsão pela substância, o usuário desenvolve comportamentos de risco, que podem chegar à atividade criminosa e à prostituição", diz Solange Nappo, da Unifesp. Pablo Roig, psiquiatra e dono de uma clínica de tratamento de dependentes químicos, acrescenta que a dependência chega a tal ponto que "o usuário perde a capacidade de decidir se usará ou não a droga".

A mancha do crack se espalha entre usuários de drogas devido a uma combinação de acesso econômico e potência química. Jairo Werner, psiquiatra da Universidade Federal Fluminense e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, chama a atenção para a relação "custo-efeito" da droga. "A relação entre preço e efeito faz do crack uma droga muito popular, de fácil acesso", diz. Ele explica ainda que os traficantes desenvolveram uma verdadeira estratégia para ampliar o mercado da droga: a "venda casada", de maconha mais crack. "No primeiro momento, a maconha dá um relaxamento e o efeito do crack é mitigado. Depois, o usuário resolve experimentar o crack puro e sente um efeito muito mais poderoso."

Começam, então, as mudanças de comportamento. Além de graves consequências para a saúde, a droga provoca no dependente atitudes violentas. "Ele fica alterado, inquieto, irritado e, em geral, passa a se envolver com a criminalidade como nenhum outro usuário de drogas", diz Laranjeira, da Associação Brasileira de Psiquiatria. "A única prioridade é a droga: a saúde, a família, o trabalho e os amigos ficam de lado. É uma mudança total no esquema de vida e estrutura de valores", acrescenta Roig.


Estimativas americanas apontam que, a cada dólar gasto no combate às drogas, a sociedade economiza até sete dólares em despesas com hospitais, segurança pública e acidentes de carros, entre outros. No caso devastador do crack, fica evidente que a cruzada antidroga pode economizar ainda mais vidas.

Deixar a mente 'voar' pode trazer infelicidade, revela estudo

Pesquisa americana diz que dispersão dos pensamentos causa insatisfação
Um estudo divulgado nesta quinta-feira nos Estados Unidos sugere que as pessoas gastam quase metade do tempo imaginando que gostariam de estar em algum outro lugar ou fazendo alguma outra coisa - e essa contínua dispersão da mente as torna infelizes. "A mente humana é uma mente dispersa, e uma mente dispersa é uma mente infeliz", escrevem os psicólogos Matthew Killingsworth e Daniel Gilbert, da Universidade de Harvard, na revista científica Science. "A habilidade de pensar sobre o que não está acontecendo no momento é uma conquista cognitiva, mas tem um custo emocional."
A pesquisa acompanhou 2.250 pessoas por meio de seus iPhones. Um aplicativo foi instalado para perguntar aos voluntários "o quanto felizes estão, o que estão fazendo no momento e se estão pensando sobre a atividade que estão realizando ou sobre qualquer outra coisa - e, neste caso, se é um pensamento agradável, neutro ou desagradável". A pergunta aparecia na tela dos iPhones em intervalos irregulares. Quando os resultados foram computados, os cientistas constataram que a mente das pessoas estava divagando 46,9% do tempo.


Os voluntários disseram-se mais felizes quando faziam sexo, se exercitavam ou tinham uma conversa. Por outro lado, descreveram maior infelicidade quando usavam o computador em casa, descansavam ou trabalhavam. Ao examinar as respostas dadas pelos voluntários quando suas mentes divagavam, os psicólogos descobriram que "apenas 4,6% da felicidade das pessoas em um determinado momento pode ser atribuída à atividade específica que ele ou ela está desempenhando". E o estado de divagação de uma pessoa corresponde a cerca de 10% de sua felicidade.

O estudo indica que "análises de intervalo causa-efeito" apontam que "a mente divagante dos voluntários é geralmente a causa, e não a consequência, de sua infelicidade". Os voluntários tendem a ter mais foco no presente e são menos propensos à dispersão durante o sexo, segundo a pesquisa. Ao realizar qualquer outra atividade, as mentes divagam pelo menos 30% do tempo. "A divagação da mente é um excelente prognóstico da felicidade das pessoas", concluiu Killingsworth. "O estudo mostra que nossa vida mental é permeada, em um nível significativo, pelo não-presente". O aplicativo para iPhone usado na pesquisa está disponível para download no site http://www.trackyourhappiness.org/.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Esperança contra o autismo

Como um pesquisador brasileiro fez neurônios doentes se comportarem como normais

O autismo é um dos mais intrigantes transtornos do desenvolvimento humano. Não é uma doença única, mas uma síndrome compostas por diversos males neurológicos que têm em comum duas características: deficiências no contato social e comportamento repetitivo. Durante muito tempo, acreditou-se que as crianças eram acometidas pela doença simplesmente porque não receberam afeto dos pais. Nas últimas décadas essa visão foi substituída pela certeza de que o problema é provocado por um distúrbio biológico no cérebro. A mais impressionante evidência

disso foi divulgada hoje (11) pela revista científica Cell.


A equipe liderada pelo biólogo brasileiro Alysson Muotri, professor da Universidade da Califórnia, em San Diego, conseguiu três feitos inéditos e impactantes:

1) criou neurônios autistas em laboratório

2) revelou que eles são diferentes dos neurônios normais desde o início do desenvolvimento

3) conseguiu tratar os neurônios autistas e fazer com que eles se comportassem como neurônios normais

Nesse trabalho, Muotri decidiu trabalhar apenas com autistas portadores da síndrome de Rett - uma forma grave da doença. Os indivíduos que sofrem desse problema se desenvolvem normalmente até o primeiro ano de vida. A partir dessa fase, começa uma regressão acentuada. Além de apresentar comportamento autista, os pacientes perdem a coordenação motora e sofrem de rigidez muscular. Muitos morrem na juventude.
A síndrome de Rett foi escolhida pela equipe porque tem uma causa genética clara. Sabe-se que é provocada por mutações no gene conhecido como MeCP2. Além disso, os neurônios são afetados de forma mais dramática do que nos casos de autismo sem causa determinada

Para investigar como a doença se origina, Muotri decidiu criar neurônios autistas em laboratório. Células da pele de pacientes foram extraídas por meio de uma biópsia simples. Elas receberam quatro genes que as induziram a se comportar como se fossem células-tronco embrionárias.As novas células tornaram-se capazes de dar origem a qualquer tipo de tecido.

Essas células são conhecidas no meio científico como células-tronco de pluripotência induzida (iPS). O método foi descrito pela primeira vez pelo japonês Shinya Yamanaka em 2006. Atualmente é empregado no estudo de várias doenças porque elimina a necessidade de descarte de embriões humanos e todos os dilemas morais decorrentes disso.

Em seguida, a equipe de Muotri adicionou vitamina A e outros fatores para induzir as células iPS a se transformar em neurônios. Deu certo. Como o genoma dessas células veio de pacientes autistas, pela primeira vez na história cientistas conseguiram criar neurônios autistas em laboratório e testemunhar o funcionamento deles desde o início do desenvolvimento. Observar o desenvolviemnto de um neurônio doente numa placa de Petri não é a mesma coisa que testemunhar isso dentro do cérebro de um paciente. Mas é um grande começo.


O grupo observou que o tamanho do núcleo dos neurônios autistas é menor do que o núcleo dos neurônios normais. O número de sinapses (pontos de contato onde ocorre a transmissão de impulsos nervosos entre uma célula e outra) também é reduzido nos neurônios autistas.

"Conseguimos demonstrar muito claramente que o autismo é uma doença biológica causada provavelmente por um defeito genético”, diz Muotri. “Esses neurônios criados em laboratório não sofreram a influência de nenhum fator ambiental e, mesmo assim, eram autistas”.

Se já é possível criar neurônios autistas, será que em breve será possível “consertá-los”? A equipe de Muotri também investigou isso. Duas drogas foram usadas na tentativa de curar os neurônios: o fator de crescimento de insulina 1 (IGF-1) e a gentamicina. O resultado foi muito motivador. Os neurônios autistas tratados passaram a se comportar como se fossem neurônios normais.

“Isso é fantástico, uma esperança de que a cura é possível”, diz Muotri. O trabalho indica que o estado autista não é permanente - e sim reversível. “Mostramos que é possível tratar esses neurônios antes dos sintomas aparecerem”, diz.
Nenhuma das duas drogas, porém, podem ser usadas atualmente em pacientes. Uma delas não cruza a barreira hematoencefálica (membrana que protege o cérebro de substâncias químicas presentes no sangue). A outra droga é tóxica. Mas o método pode ser usado para testar novas drogas desenvolvidas com o objetivo de reverter o autismo. Também pode dar origem a um teste de diagnóstico inequívoco baseado num material abundante e de simples acesso:  células da pele.
 
“O mais surpreendente é que por esse método pudemos reconstituir a história de uma doença psiquiátrica numa placa de Petri”, diz Fred Gage, professor do Laboratório de Genética do Instituto Salk, em San Diego. É possível que em breve outras doenças psiquiátricas possam ser esclarecidas da mesma forma.
 
 


O grupo de Gage também participou do trabalho. Foi com ele que Muotri aprendeu a transformar células-tronco embrionárias em neurônios. Gage orientou o pós-doutorado de Muotri no Instituto Salk. Desde então, o brasileiro galgou vários degraus. Em 2008, tornou-se coordenador de um laboratório na Universidade da Califórnia. Coordena 12 pessoas. No ano passado, recebeu US$ 1,5 milhão do National Institutes of Health (NIH) para aplicar nas pesquisas. Outro trabalho com os neurônios autistas foi aceito pela revista Nature e deve ser publicado na próxima semana.

Filho de um advogado e de uma comerciante que tinha uma papelaria no bairro de Pinheiros, em São Paulo, Muotri vive há oito anos nos Estados Unidos. É casado com a bióloga paulistana Carol Marchetto, uma das autoras do trabalho. Eles se conheceram no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo. Junto com o colega Cassiano Carromeu, formam o trio de brasileiros que assina o trabalho junto com outros seis pesquisadores estrangeiros.

Carol e Muotri não pretendem sair de San Diego tão cedo. Lá encontraram condições ideais (dinheiro, liberdade, metas) para realizar pesquisa científica e uma qualidade de vida que o fez recusar convites para trabalhar em Boston e em Nova York.

Em San Diego, Muotri descobriu o surfe e a ioga. “A pressão no ambiente acadêmico é tão grande que o cientista precisa ter preparo físico para suportar”, diz. “O surfe e a ioga me equilibram e me ajudam a lidar com as pressões”. Se a prática do esporte é proporcional aos insights que Muotri vem acumulando, vamos torcer para que ele continue pegando muitas ondas.




Cérebro já tem zona pré-preparada para alfabetização

Estudo revela que a leitura melhora o processamento de estímulos visuais

Estudo realizado em letrados, iletrados e ex-iletrados.

Identificaram-se, pela primeira vez, imagens detalhadas do impacto da aprendizagem da leitura no cérebro. Segundo o trabalho desenvolvido por diferentes equipas internacionais - onde se incluem dois cientistas portugueses -, “aprender a ler, mesmo na idade adulta, é uma experiência tão importante para o cérebro que ele redistribui alguns dos seus recursos, obrigando outras funções, como o reconhecimento facial, a abrir mão de parte da sua gleba”. Os resultados da investigação são publicados hoje, on-line, na revista «Science».

Os investigadores, coordenados por Stanislas Dehaene, director da Unidade de Neuro- imagiologia Cognitiva do Inserm-CEA (França) e Laurent Cohen, da mesma estrutura, levaram a cabo o estudo com diferentes cientistas das universidades de Paris-Sul e Pierre e Marie Currie, entre outras, assim como com equipas portuguesas, brasileiras e belgas.

Paulo Ventura, da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa (UL) que participou na investigação, avançou ao «Ciência Hoje», que para experiência, mediram “a actividade cerebral de 63 participantes – de nacionalidade portuguesa e brasileira – divididos em três grupos: letrados (31), iletrados (dez) e ex-iletrados (22 pessoas que não frequentaram a escola com a idade normal e aprenderam a ler em adultos) através de Ressonância Magnética funcional (fMRI)”.


                                                                      Paulo Ventura




E, comparando a actividade cerebral dos adultos analfabetos com a dos alfabetizados desde a infância ou em idade avançada, os resultados demonstraram que “existe uma actividade massiva resultante da leitura, tanto nas regiões visuais do cérebro como nas que são utilizadas para a linguagem falada”, explicou o cientista.

O investigador da UL sublinhou ainda que “é fundamental percebermos que uma aprendizagem cultural como a leitura tem um impacto muito grande sobre as respostas que o cérebro vai dar, quer sobre a informação escrita quer sobre a falada, e essas modificações podem ocorrer em qualquer idade”.

Uma das razões que leva a relevar a importância deste trabalho é o facto de a escrita ser “uma invenção demasiado recente para ter sido influenciada pela evolução genética humana”, e isso significa que o cérebro “já tinha áreas específicas preparadas para tratar a linguagem escrita e que todos temos zonas cerebrais que nos permitem desenvolver a leitura”, asseverou igualmente Paulo Ventura.

Competição nos hemisférios

José de Morais, outro investigador português, mas integrado na equipa belga (Universidade Livre de Bruxelas), explicou que “aquilo que à primeira vista não deveria ocorrer – modificações no córtex auditivo do iletrado, por falarem e perceberem a fala –, acontece também e verificam-se alterações na região do córtex temporal quando há tratamento fonológico, embora não seja feito da mesma forma”. Ou seja, os analfabetos “têm igualmente uma representação da fala, apesar de ser menos consciente”.



José de MoraisMais importante para este investigador é perceber que “a estrutura já existia”, mas tinha “outra função” e, aquando da aprendizagem, “passa simplesmente a identifica palavras.” Neste caso, ocorre “uma espécie de ‘reciclagem’ das zonas cerebrais pré-existentes e dedicadas a outras funções” que se dedicará posteriormente a identificar símbolos da escrita e a liga-los com a linguagem falada.

No entanto, este aspecto levantou uma questão: «Será que existem consequências e que outras habilidades são afectadas?» José de Morais respondeu que sim e sustentou que “há uma espécie de estreitamento do hemisfério esquerdo – responsável pelo reconhecimento visual (rostos) – e dá-se uma passagem para o direito”. O investigador referiu ainda que ocorre uma “competição entre o tratamento das palavras escritas e o reconhecimento de caras”.

As conclusões mostram portanto que a leitura melhora o processamento de estímulos visuais orientados horizontalmente no córtex occipital e também conduz ao aparecimento de uma área especializada para palavras no córtex temporal.

A investigação englobou, paralelamente, populações brasileiras e portuguesas por serem de países onde, há dezenas de anos, era frequente as crianças não poderem ir à escola por estarem num ambiente social relativamente isolado e rural. Todos os voluntários incluídos eram pessoas socialmente bem integradas, de boa saúde e a maioria com emprego. A experiência foi realizada com fMRI, de ressonância 3 Tesla, no Centro NeuroSpin (Saclay, França) no caso dos portugueses e no Centro de Investigação em Neurociências do Hospital Sarah Lago (Brasil) para o segundo grupo.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Cientistas brasileiros consertam 'neurônio autista' em laboratório

Ainda falta muito para recuperar cérebro inteiro, diz pesquisador.

Estudo mostra base biológica de doença altamente estigmatizada.

O biólogo molecular e colunista do G1 Alysson Muotri e cientistas brasileiros conseguiram transformar neurônios de portadores de um tipo de autismo conhecido como Síndrome de Rett em células saudáveis. Trabalhando nos Estados Unidos, os pesquisadores mostraram, pela primeira vez, que é possível reverter os efeitos da doença no nível neuronal, porém os remédios testados no experimento, realizado em laborátorio, ainda não podem ser usados em pessoas com segurança.

Muotri, pós-doutor em neurociência e células-tronco no Instituto Salk de Pesquisas Biológicas (EUA) e professor da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia em San Diego, trabalhou com os também brasileiros Cassiano Carromeu e Carol Marchetto. O estudo sai na edição de sexta-feira (12) da revista científica internacional “Cell”.

Para analisar diferenças entre os neurônios, a equipe fez uma biópsia de pele de pacientes autistas e de pessoas sem a condição. Depois, reprogramou as células da pele em células de pluripotência induzida (iPS) – idênticas às células-tronco embrionárias, mas não extraídas de embriões. “Pluripotência” é a capacidade de toda célula-tronco de se especializar, ou diferenciar, em qualquer célula do corpo.
A reprogramação genética de células adultas é feita por meio da introdução de genes. Eles funcionam como um software que reformata as células, deixando-as como se fossem de um embrião. Assim, as iPS também podem dar origem a células de todos os tipos, o que inclui neurônios.
Como os genomas dessas iPS vieram tanto de portadores de autismo como de não portadores, no final o trio de cientistas obteve neurônios autistas e neurônios saudáveis.

Comparação, conserto e limitações



Comparando os dois tipos, o grupo verificou que o núcleo dos neurônios autistas e o número de “espinhas”, as ramificações que atuam nas sinapses – contato entre neurônios, onde ocorre a transmissão de impulsos nervosos de uma célula para outra – é menor.


Identificados os defeitos, o trio experimentou duas drogas para “consertar” os neurônios autistas: fator de crescimento insulínico tipo 1 (IGF-1, na sigla em inglês) e gentamicina. Tanto com uma substância quanto com a outra, os neurônios autistas passaram a se comportar como se fossem normais.

“É possível reverter neurônios autistas para um estado normal, ou seja, o estado autista não é permanente”, diz Muotri, que escreve no blog Espiral. “Isso é fantástico, traz a esperança de que a cura é possível. Além disso, ao usamos neurônios semelhantes aos embrionários, mostramos que dá para fazer isso antes de os sintomas aparecerem.”



Os resultados promissores, porém, configuram o que é chamado no meio científico de “prova de princípio”. “Mostramos que a síndrome pode ser revertida. Mas reverter um cérebro inteiro, já formado, vai com certeza ser bem mais complexo do que fazer isso com neurônios numa placa de petri [recipiente usado em laboratório para o cultivo de micro-organismos]”, explica o pesquisador.

Entre as barreiras que impedem a aplicação prática imediata da descoberta está a incapacidade do IGF-1 de chegar ao alvo. “O fator, quando administrado via oral ou pela veia, acaba indo muito pouco ao cérebro. Existe uma barreira [hematocefálica] que proteje o cérebro, filtrando ingredientes essenciais e evitando um ataque viral, por exemplo. O IGF-1 é uma molécula grande, que acaba sendo filtrada por essa barreira”, afirma Muotri. “Temos de alterar quimicamente o IGF-1 para deixá-lo mais penetrante.” Além disso, tanto o fator quanto a gentamicina são drogas não específicas, portanto causariam efeitos colaterais tóxicos se aplicadas em tratamentos com humanos.

Síndrome de Rett

O foco do estudo foi a chamada Síndrome de Rett, uma doença neurológica que faz parte do leque dos autismos. “Leque” porque o autismo não é uma doença única, mas um grupo de diversas enfermidades que têm em comum duas características bastante conhecidas: deficiências no contato social e comportamento repetitivo.


No caso dos portadores de Rett, há um desenvolvimento normal até algo em torno de seis meses a um ano e meio de idade. Mas então começa uma regressão. Além das características autistas típicas, neste caso bem acentuadas, eles vão perdendo coordenação motora e rigidez muscular.

Essa síndrome foi escolhida para o trabalho de Muotri, Carromeu e Marchetto porque tem uma causa genética clara – mutações no gene MeCP2 – e porque afeta os neurônios de forma mais acentuada, facilitando comparações e verificações de reversão.

“Talvez a implicação mais importante desse nosso trabalho é o fato de que os neurônios derivados de pessoas com autismo mostraram alterações independentemente de outros fatores. Isso indica que o defeito foi autônomo. Por isso, esse dado deve contribuir para reduzir o estigma associado a doenças mentais”, comemora Muotri. “Você não fica autista porque sua mãe não te deu o amor necessário ou porque seus pais foram ruins.”

Utilidade das iPS

Lygia da Veiga Pereira, doutora em Ciências Biomédicas e chefe do Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias (LaNCE) da USP, saudou a pesquisa: "É mais um trabalho que mostra a enorme utilidade das células iPS, não como fonte de tecido para terapia celular, mas como modelo para pesquisa básica, para entender os mecanismos moleculares por trás de diferentes doenças que tenham forte base genética."


Lygia faz uma ressalva sobre as características muito específicas da Síndrome de Rett. Como a disfunção é exclusivamente associada a uma mutação genética, ficam de fora os fatores ambientais que desencadeiam o autismo.

Ainda segundo a especialista, os resultados obtidos por Muotri também realçam "o que brasileiros podem fazer trabalhando com infraestrutura e agilidade para conseguir reagentes, por exemplo, e interagindo com uma comunidade científica de grande massa crítica".